segunda-feira, novembro 12, 2012



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ESQUECENDO ELEIÇÕES
Antônio Risério*
Despachei e-mail para meu querido amigo Caetano Veloso: pela primeira vez , depois de anos, fechamos numa eleição com os mesmos candidatos: Marcelo Freixo no Rio de Janeiro, Fernando Haddad em São Paulo, Neto em Salvador. Afora isso, vibrei com a virada de Fruet em Curitiba (tinha inclusive feito uns trabalhos de pré-campanha para ele, com Giovanni Soares, no ano passado).
Na verdade, torci total pela vitória de Freixo, chama inovadora na velha paisagem político-eleitoral do Rio. Fui para São Paulo mergulhar de corpo e alma na campanha de Haddad, figura que, como a nossa hoje presidente Dilma, conheci em 2006 na campanha da reeleição de Lula. E defendi a que a vitória de Neto seria melhor para a nossa cidade do que a de Pelegrino, sujeito mentalmente limitado, incapaz até de voos rasteiros. Há tempos não concordávamos assim. Eleitoralmente, eu e o poeta-pensador. Conversávamos sobre eleições, mas geralmente em posições diversas.
Mas não quero fazer análises, me concentrar em papos enviesados (depois do resultado das urnas, é fácil fazer interpretações, mas deixo isso para jornalistas e professores universitários), nem nadar em ressacas eleitoras. Mas algumas coisas merecem ressalte. Por exemplo: em São Paulo, apresentamos e defendemos abertamente um candidato. Mostramos seus feitos, suas virtudes, suas propostas – contra um José Serra em avançado estágio de autodeterioração política e ideológica, usando sucessivas máscaras reacionárias, mentindo para si e para toda a população. Em suma: ostentamos Haddad, vistosamente.
Na Bahia, ao contrário, até tentavam me esconder Pelegrino. Com o seguinte papo o voto não é no candidato – é no “projeto”. Em que projeto, pelo amor de Deus? Até o projeto nacional de Lula foi construído, em grande medida, contra a falta de senso, de realidade, contra a falta de projeto do próprio PT. E o PT precisa aprender isso. Não pode falar de “projeto” porque não o tem,globalmente, como partido. Haddad vai governar, inclusive, contra a intolerância e o sectarismo petistas, tendo de enfrentar a “nefasta” tradição do corporativismo, em áreas fundamentais como as da educação e da saúde pública. Ou seja: em vez de esconder o candidato atrás de um “projeto” trata-se , na verdade, de exibir o candidato para ocultar as graves e grandes deficiências do “projeto”, ok?
Outra coisa: não me venham com a conversa fiada de retorno do carlismo. Não existe carlismo sem Antonio Carlos (carlismo só existe na fantasia de das viúvas políticas de ACM, sejam elas de direita ou de esquerda, ambas ressentidas e revanchistas, sem saber pensar se lhes tirarem o velho do caminho e da cabeça). E, se existisse sem Antonio Carlos, o carlismo já teria voltado há tempos. Graças ao PT local, claro. Com Otto Alencar no papel de guru e vice-governador, com Cézar Borges na função de aliado preferencial, com carlistas ocupando cargos de comando no governo estadual, com Sérgio Carneiro (sim: carlista desde criancinha – e acusado de coisas corruptas no governo do pai João Durval) se destacando entre os quadros petistas.
Mais, como bem viu Paulo Fábio: com Wagner aplicando a “gramática do carlismo” para assegurar sua hegemonia baiana. E não existe carlismo, ainda, porque –como bem sabem antropólogos, travestis, internautas e vendedores de cafezinho – neto não é avô.
Bem. O que espero de Neto é que ele não olhe menos em Luiz Eduardo (homo politicus) do que em Antonio Carlos , que pare de posar de “protagonista da CPI do mensalão”, não pise na bola das trocas de favores e se abra de fato para o diálogo crítico sobre a cidade. Espero, principalmente, que ele cumpra o que está prometendo a si mesmo, como já disse em entrevistas: pensar o futuro da cidade de forma plural, sem boçalidade, numa conversa séria. E é o seguinte. Salvador está caindo aos pedaços. Tem de reconfigurar a sua expansão urbana, reativar a sua memória, diminuir distâncias sociais, recuperar a sua criatividade e reconquistar o seu lugar na vida brasileira. Quem não vir isso, não será prefeito.
*Antonio Risério antropólogo e escritor

11 comentários:

Adalberto Braga disse...

Mais um Autocomentário, mas esse tem uma certa justificativa, pois a postagem ipsis litteris foi A Pedido, de forma que não sou o autor e não estaria 'cometendo' um autocomentário. Então vamos lá.
Eu acho 'superbacana' quando alguém concorda assim tão fielmente com Caetano, e olha que o Mano não optou ainda 'entre o inseto e o inseticida'.
Três tijoladas rápidas neste do Risério porque ainda estou digerindo aquele do Dr. Gabrielli.
1. Mergulhou de cabeça na campanha do Haddad. Eu pergunto; será que mergulhou vendado, ou fez questão de não ver, não quis ver mesmo aquela coisa malufista boiando no meio da campanha?
2. Neto não deve pisar na bola das trocas de favores. Eu pergunto; o jogo jogado entre Haddad e Cassab é troca de favores ou foi feito logo um contrato de seção de direito?
3. Não é citando umas tantas minorias e colocando-as na vanguarda da interação política que o antropólogo vai conseguir disfarçar seu preconceito. Quando um 'Cumpanheiro' de outros tempos é tido hoje como 'indivíduo mentalmente limitado' é porque a antropologia atingiu o seu máximo. Deve ter sentido uma fisgada no ciático quando a 'nossa hoje presidente' Dilma, muito subliminarmente, tal qual peido que não se espera que venha acompanhado, e vem; aludiu à estatura do candidato Neto. Talvez tenha se dado naquele momento o click que fez o Risério assim como o Caetano optarem pelo voto no Neto. Macaquinho que muito pula termina deixando de ser Risério e vira risível.
Tenha pena do seu primo, esse do Risério vai me absorver por pelo menos umas três semanas.

Márcio disse...

Não se prive de fazer comentários, pois só tem nós dois aqui mesmo. Não sei quais foram suas fontes, blogueiro, mas, como fui eu quem sugeriu o post, sinto-me na obrigação de corrigir/complementar o que você escreveu. Vamos lá:

1 - Risério não entrou de cabeça na campanha de Haddad. Ele foi contratado (sim, recebendo em dinheiro) para trabalhar na campanha de Haddad em São Paulo. Isso já havia ocorrido em campanhas políticas do passado - é uma das fontes de renda do cara, que não tem sinecura alguma garantida por peixada. Pelo que entendo, você acha que ele tinha de ter pedido as contas na hora em que Maluf declarou apoio ao candidato do PT. É isso? Se for assim, não vai sobrar um candidato "digno" de apoio no Brasil. ACM Neto pode/deve ser julgado pelo apoio que recebeu de Geddel?

2 - Não sei a que jogo de favores você se referiu aqui. Foi Serra quem Kassab apoiou. Veja as manchetes: "Por apoio à campanha de Serra, Kassab ataca Haddad" (Folha de São Paulo), "PSD de Kassab oficializa apoio a Serra" (VEJA.com), etc. Assim, duvido que ele que indique alguém para a equipe de Haddad. Mas o PSD foi um partido que cresceu muito (na esteira da derrocada do PFL), e o governo federal já acenou que gostaria de tê-lo a seu lado em votações importantes. Vai ser mais uma sigla auxiliar, como tantas outras, já que oposição de verdade eu duvido que faça a algum dia, não importa quem esteja no poder.

3 - Preconceito contra um companheiro? Ora, o companheiro em questão é advogado, é doutor com anel no dedo. Se fosse para Risério, que nunca foi do PT nem de partido algum, ter algum preconceito, talvez fosse em relação ao sapo barbudo sem dedo, que passou longe da faculdade, não é? Mas Risério tem admiração por Lula, embora também reconheça seus muitos defeitos. Há aqui um detalhe interessante: Risério jamais se formou na UFBa (abandonou o curso em pouco mais de um ano), sendo basicamente um autodidata em sua formação, sem o ranço acadêmico que embota algumas mentes. Não poderia, a rigor, nem ser chamado de antropólogo, mas recebeu, bem mais tarde, esse título honoris causa da própria UFBa.

A referência feita por Dilma no comício em Salvador foi lamentável (digna dos piores momentos de Lula). Mas ela não será lembrada por esse momento infeliz, do mesmo modo que o prefeito eleito de Salvador não será lembrado pela ameaça de agressão física que fez, em pleno púlpito da Câmara dos Deputados, ao presidente do país, será?

Para terminar, nenhum macaquinho mudou de galho. O que Risério e Caetano fizeram foi escolher os candidatos que julgaram melhores em Salvador (PFL), Rio de Janeiro (PSOL) e São Paulo (PT). Quem pulou de galho aqui? No passado os dois já elogiaram políticos/administradores mais à esquerda, do mesmo modo que elogiaram Jayme Lerner quando este governou Curitiba pela ARENA/PDS. Não há conflito aqui.

Para terminar, uma curiosidade: se você não só discorda, como despreza, as opiniões de Risério e Caetano, quem é, em sua opinião, que emite opiniões dignas de crédito sobre a realidade da Bahia e de Salvador hoje em dia? Aguardo resposta.

P.S. Manere aí nas metáforas escatológicas, rapaz. Você acha que elas acrescentam algum valor à argumentação? Eu não acho.

Adalberto Braga disse...

1. - O Risério foi para São Paulo 'mergulhar de corpo e alma', palavras dele, na campanha do Haddad. Agora eu sei através de você que ele fora contratado, 'pago com dinheiro', palavras suas. Não tenho nada contra o Risério 'mergulhar de corpo e alma' na campanha de seu ninguém em troca de pagamento, e SIM, eu acho que ele deveria ter pedido as contas. O que eu imaginei que aconteceria com a entrada de Malluf é que muitas outras pessoas seguiriam a Erundina. Repito que entendo perfeitamente a necessidade de todos nós precisarmos pagar a conta do supermercado, mas se o contrato de prestação de serviço foi a única justificativa para o engajamento na campanha, este deve ter sido por soma vultosa já que além do ‘corpo’ ele também empenhou a ‘alma’ no negócio. Esse é o profissional. ACM Neto não é nem julgado, é CONDENADO automaticamente por qualquer posicionamento que tome, afinal de contas como o Cristão que já nasce com pecado original, ele já nasceu com o pecado da genealogia, as três ‘Letras Escarlates’ gravadas no nome. É claro que vai sobrar candidato digno de receber apoio, ou não lhe agradou a atitude da Luiza Erundina?
2. - Não fui eu que me referi a jogo de favores, foi o Risério que colocou como esperanças, expectativas dele em relação ao Neto que este não ‘pise na bola das trocas de favores’ algo assim como um ministério para Marta, caso ela deixe de fazer beicinho e ‘mergulhe de corpo e alma’ na campanha do Haddad. E SIM, tem nomeação do Kassab no secretariado do Haddad, só não está confirmada porque a “nova” administração só será inaugurada ano que vem. Veja aí nas manchetes, o Sr. Roberto Trípoli (PV), líder do prefeito Kassab na Câmara. Acenou com quanto? O último aceno que este Governo fez para ter apoio de partidos foi feito assim: Com um pouco de recursos não contabilizados que sobraram da campanha do PT e mais uns caraminguás levantados com empréstimo em banco pelo PT, partido do governo, foi feito um acordo para pagar dívidas de campanha de outros partidos da base de apoio do Governo. Tudo feito dentro da maior legalidade e normalidade. Caixa 2? Normal, todo partido faz; sobra de caixa de campanha? Normal, a legislação não determina que as sobras sejam devolvidas para os doadores ou para o fundo partidário; e partido político doando dinheiro para qualquer instituição principalmente partidária? Normalíssimo, é tão normal que a legislação relaciona os destinos que podem ser dados aos recursos amealhados pelos partidos políticos.

Adalberto Braga disse...

3. – Jactar-se da própria ignorância pode até estar na moda, mas só pega bem para o Lulla. O Risério pode até não ter concluído a graduação em Antropologia, mas alguém lhe atribuiu um grau de Mestre em Sociologia em 1996, pela UFBA apresentando os escritos ‘Avant-Garde na Bahia’ sobre o período de reitoria do Magnânimo Edgard Santos; escritos esses que foram apresentados e defendidos como tese para a obtenção do Grau de Mestre em Sociologia; (fonte: jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?tag=antonio-riserio). O Peleguinho tem apenas uma graduação, ele é Bacharel em Direito, não tem Mestrado e muito menos Doutorado, mas nem por isso deve ser equiparado a um galináceo, ‘mentalmente limitado, incapaz até de voos rasteiros’. Imagine o clima, a situação em um encontro casual entre os dois? Você é que está dizendo que Dilma não vai ser lembrada pela referência ‘lamentável’ que fez, e eu pessoalmente gostaria que ACM Neto nunca fosse esquecido por sua ‘destemperada’ ameaça de agressão física feita ao Presidente.
Achar algum termo de comparação entre os dois fatos, foge totalmente à minha capacidade, nesse aspecto sou um Peleguinho, me sinto mentalmente limitado. É como se ACM Neto resolvesse, só para chamar a atenção para si, optando entre pendurar uma melancia no pescoço e bradar ameaças ao Presidente, ficasse com esta última; e Dilma, sabendo do ritmo brincalhão impresso na campanha de Peleguinho, aproveitou uma folga na presidência, e veio dar sua contribuição à campanha do ‘cumpanheiro’, veio fazer umas piadinhas bem baixinhas. Dizem que ‘Pé de Pranta’ rolava de rir no fundo do palanque.
Para continuar 1. – Mesmo recebendo o apoio de Geddel, que não dá prego sem estopa, ou seja vive do jogo e para o jogo da troca de favores, ainda assim ACM Neto se manteve digno da escolha do Risério. Espero que à primeira nomeação feita pelo Geddel, o Risério não interprete como troca de favores e vendo suas expectativas frustradas decida que o Galho ACM Neto afinou.
Para continuar 2. – Não vincule a minha opinião sobre as poucas ideias do Risério das quais tomei conhecimento a pouco, com a que tenho sobre as do Caetano. Sou neófito em termos de Risério e Caetano ocupa um pedestal no meu ideário junto à Gandhi, Mandela e Chico Buarque. São personalidades às quais não consigo imputar qualquer defeito por cegueira idolátrica de minha parte. Muitas pessoas têm este sentimento em relação ao Lulla. As opiniões são emitidas ou não por aqueles que as têm, se são dignas de crédito vai depender de quem as avalize e credite ou não.
P.S. Metáforas são metáforas, escatológicas ou pudendas sempre trarão sua contribuição para o seio (oops! escapuliu mais essa), das discussões.

Márcio disse...

Estava preparando nova resposta para você quando soube que Emiliano José enviara réplica ao artigo original de Risério, e que este já providenciara uma tréplica. Reproduzo primeiro a resposta de Emiliano José:

Artigo: Pensando em política

Emiliano José, jornalista e escritor

A política reduzida a indivíduos. O fim de projetos políticos. A separação estanque do passado com o presente. A desqualificação gratuita e sem fundamento deumpolítico que pautou sua vida em defesa da população baiana, especialmente dos mais pobres, e que acaba de ser votado por quase a metade da população de Salvador, embora tenha perdido as eleições. Este o resumo do artigo de Risério, em que aborda eleições. Risério adora a polêmica, e muitas vezes os que pensam diferente dele deixam suas opiniões passar batido, como costuma dizer o povo. Nesse caso, não acredito seja positivo silenciar. Recorro a Paulinho da Viola: "Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim"...

Será que dá mesmo para misturar Freixo, ACM Neto e Fernando Haddad como se fossem a mesma coisa? Como se não houvesse diferenças entre eles? Será possível pensar que votar nesses três significa coerência? Por menos que pretenda Risério, são projetos distintos. Projetos diversos de País, de concepção da política, e num caso ao menos, o de ACMNeto, de concepções distintas de mundo. Este último, por obviedade, é um homem de direita, tem concepções de direita, seu partido, hoje e ontem, é de direita. Como misturar um político que encarna esse projeto com dois que são de esquerda, embora diferentes entre si, e com visões diferentes de Brasil? Quem tenha acompanhado pouco que seja a atuação de ACM Neto na Câmara Federal, há de louvar sua coerência de político conservador, nitidamente neoliberal, e nisso nunca vacilou.

Como sustentar que o PT não tem projeto? Chega a ser irresponsabilidade, pobreza teórica, ausência de conhecimento, incapacidade de acompanhar a história recente do País, afirmar uma coisa dessas. Não me altere o samba tanto assim. Risério não sabe nada do PT. Foi esse partido, tão atacado, que conseguiu eleger Lula em 2002, ao convencer o nosso povo, em sucessivas eleições, que era preciso mudar o Brasil. E conseguimos. Não apenas vencer três eleições, mas mudar o Brasil, e só o fizemos porque temos projeto. Se Lula é um desses seres raros, de uma capacidade política única, a maior liderança de todos os tempos no Brasil, não é um político solitário, muito ao contrário. Sabe, nunca se esqueceu disso, que sua vida está intimamente vinculada ao PT, a um projeto político construído coletivamente, até hoje.

*Este artigo responde ao de Antonio Risério, "Esquecendo Eleições", publicado em 10/11/2012

Márcio disse...

Tréplica - primeira parte

Artigo: Lembranças que importam

Antonio Risério*

Entendo que o jornalista e escritor Emiliano José, em sua ainda condição ou função comissarial, tenha se visto na obrigação de assumir as dores de Nelson Pelegrino, candidato derrotado à Prefeitura de Salvador. Tudo bem. Mas nem por isso precisava falsificar o artigo que escrevi e publiquei aqui.

Porque é realmente escandalosa a diferença entre o que eu escrevi e o que Emiliano José leu. O lance é distorcer para poder contestar? Não, meu caro. Veja o que você acha que eu disse: "O fim de projetos políticos. A separação estanque do passado com o presente. A desqualificação gratuita de um político que pautou sua vida em defesa da população baiana... Será que dá mesmo para misturar Freixo, ACM Neto e Fernando Haddad como se fossem a mesma coisa?".

Primeiro, não leve para o plural o que coloquei no singular. Não falei em "fim de projetos políticos" pelo simples motivo de que não acredito nisso. Projetos políticos existem desde tempos paleontológicos. E vão existir sempre. Aprendemos essa lição com Aristóteles, ok? O que falei foi específico: a crise projetual do PT. Se você quer discutir com seriedade, discuta isso. E comece pelas leituras de André Singer (o autor de Os Sentidos do Lulismo: Reforma Gradual e Pacto Conservador) e Tales Ab'Saber, em Lulismo: Carisma Pop e Cultura Anticrítica.

Segundo: Pelegrino, no Congresso, não fez nada de importante para Salvador. Seus projetos foram em boa parte recusados. E ele ainda quis inventar uma esdrúxula Universidade da Região Metropolitana de Salvador. Quando Mário Kertész ainda estava na dúvida se seria ou não candidato, encomendei a uma especialista no assunto (a melhor que temos hoje no Brasil: Susi Aissa) um levantamento completo - estatístico e analítico - do desempenho de Pelegrino como deputado. Ela ficou chocada. Pelegrino não tinha feito nada. Passou em brancas nuvens seus muitos anos de deputado. Portanto, Emiliano, não minta. Não venha dizer que o bobão que vocês inventaram passou a vida lutando em defesa do povo de Salvador.

Em momento algum escrevi que era possível "misturar" Freixo, Neto e Haddad. São pessoas e personalidades completamente distintas. Tanto que, se Pelegrino tivesse sido o candidato do PT em São Paulo, eu teria votado em Serra. Mas a discussão não é essa, Emiliano, e você deveria saber isso. A discussão é: por que tanta gente (incluindo artistas e intelectuais) hoje, no Brasil, se dispõe a votar em candidatos de partidos diferentes entre si (para o PSOL, Emiliano, vocês do PT estão quase na direita)? Qualquer análise séria tem de começar por aqui, pela crise do partidocratismo tristetropical.

Aliás, podemos levantar aqui outra discussão, meu caro. Sobre pessoas na política. A psicanálise e o existencialismo acabaram com qualquer ingenuidade "holística" sobre o tema. E Adam Przeworski está certo quando diz que o marxismo é uma teoria da história que não foi capaz de elaborar uma teoria das ações das pessoas que fazem esta mesma história. E sempre será insatisfatória, na minha modesta opinião, qualquer teoria da história que seja incapaz de dar conta da ação dos indivíduos.

Márcio disse...

Tréplica - segunda parte


Mas, enfim, acho que realmente não sei nada do PT. Apenas por acaso participei de 2002, quando meu amigo Palocci discutiu, com os redatores da campanha, os termos da hoje célebre "Carta aos Brasileiros". Ah, e Dilma não era do PT, mas do PDT de Brizola e Darcy (preencheu a ficha petista para poder fazer o que ainda está fazendo: ao se mover assim, Dilma prega "o fim dos projetos políticos"?). Por fim, Emiliano, deixe Paulinho da Viola em paz. Ele é claro, limpo e lógico. Belo e profundo exemplo de conservador, no campo estético.

Pelegrino, ao contrário, não é belo, nem profundo, nem exemplo. Muito menos exemplo, para dizer a verdade. Quanto a dizer que ele teve quase a metade dos votos da população de Salvador, pense no seguinte: foi esta mesmíssima população que elegeu, por duas vezes!, o atual desprefeito João Henrique. Respeitemos o voto, sim. Mas sem manipular as coisas, nem reverenciar a burrice.

*escritor e articulista do jornal A TARDE

Este artigo responde ao de Emiliano José, "Pensando em Política", publicado em 14/11/2012, como réplica ao artigo anterior de Antonio Risério, "Esquecendo Eleições", publicado em 10/11/2012

Márcio disse...

Não sei o nome do que vem depois da tréplica. Mas lá vai (parte 1):

Seg , 19/11/2012 às 10:00

Artigo: De demônios e política

Emiliano José | jornalista e escritor

O escritor Antonio Risério sabe que o discurso é traiçoeiro. Sempre deixa o autor totalmente exposto, nu. Este, o incauto autor, é prisioneiro de suas palavras, que o revelam para além de seus desejos conscientes. Insisto: Risério não considera projetos políticos, ao menos no caso brasileiro, onde vive. Quando diz que se estivesse em São Paulo, e o demônio que ele elegeu como preferido - Pelegrino - fosse candidato, tranquilamente votaria em Serra.

Com isso, esclarece que não se importa com programas, ideias, propostas. Não importa que Serra seja contra os homossexuais, contra os direitos das mulheres, que seja um político do medievo trevoso, intérprete da direita brasileira, felizmente derrotado. A Risério, não importa projeto político. Mais vale o seu olhar sobre cada personalidade, quem sabe o gosto individual, do que projetos políticos, e na formulação sobre Serra novamente deixou-se trair, tanto quanto o fizera no primeiro texto de ataque ao demônio que o aflige.

Reafirmo, sem elevar o tom como o fez Risério no último artigo, que, ao refutá-lo o fiz com base em seu pensamento. Sempre recebo bem indicações bibliográficas, quanto mais vindas de Risério, que sei um sujeito lido. As feitas no último artigo, no entanto, são dispensáveis, porque sobejamente conhecidas. Conheço André Singer e seu pensamento - ainda na semana que passou estávamos reunidos em São Paulo, no Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo.

Quanto a Adam Przeworski e seu "Capitalismo e Democracia", não há nele qualquer desmentido da essencialidade dos projetos políticos. Em nenhum momento, aí sim, leu-se uma palavra minha que dissesse que os indivíduos não tem qualquer papel na história. Em tempos pregressos, Risério leu Plekhanov, leu Marx, e compreendeu que o homem faz a história, mas a faz em determinadas circunstâncias objetivas, como aliás o diz Maria Hermínia Tavares de Almeida, no prefácio ao livro de Przeworski. Freud e Sartre, com suas notáveis contribuições, concentraram seus esforços na análise dos indivíduos, disso poucos não tem conhecimento.

Márcio disse...

Parte 2:

Ninguém é capaz de negar que os partidos, não apenas hoje, sofrem transformações contínuas, e o PT não é diferente. O que está em causa é o fato de o partido ser liderança de um projeto político, na última década, que mudou e está mudando o Brasil, a vida dos pobres especialmente, nunca desconhecendo que o faz ao lado de outros partidos de esquerda e de centro. As três eleições de Lula e Dilma não são expressões apenas das inegáveis capacidades dos dois, mas, sobretudo, e especialmente, do projeto político que encarnam, que o PT soube elaborar, cultivar, defender, e seguir em frente, como o faz hoje. A população brasileira, malgrado nossos erros, continua a dar apoio ao nosso partido, e as recentes eleições municipais são uma prova disso.

Quando elegemos um demônio, e o abrigamos na alma, ele tolda a nossa mente. Passamos a atacá-lo cegamente e nos tornamos escravos dele. Não conheço Susi Aissa. Não quero avaliá-la. No caso citado, ela errou clamorosamente, pois, sem me alongar porque a história de Pelegrino é riquíssima quanto às contribuições que deu ao povo da Bahia, lembro que é o parlamentar com maior número de emendas orçamentárias executadas e em execução em Salvador e que em 2011 foi eleito, pela terceira vez em quatro mandatos, um dos cem parlamentares mais influentes do Congresso Nacional pelo DIAP.

Insisto com Paulinho da Viola, de cuja obra musical sou profundo admirador, sem querer contrariar Risério que entende muito mais de música do que eu. Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim. Quando um demônio nos toma, ou quando o construímos, é melhor tomar muito cuidado para que, ao exagerar tanto, não fiquemos refém dele. E é sempre aconselhável procurar as razões mais de fundo pelas quais o atacamos com tanta insistência. Isso é Freud, como Risério sabe. Ou pode ser Jung, também, até mais próximo dos demônios do que Freud, ambos, no entanto, íntimos da alma humana, tão imperscrutável. Salvo melhor juízo, ponto final. O leitor já compreendeu nossas diferenças.

Adalberto Braga disse...

“Quando eu enrolava um baseado junto com Paulinho Boca e Moraes Moreira lá em Arembepe ...”
Com o aprofundamento da discussão das ideias dele com o Emiliano é que eu vou percebendo que o Risério não pulou de um galho pra outro, pelo que eu entendi ele foi sacudido de cima de todos os galhos pelas circunstâncias da vida. O Risério chama o Peleguinho de galináceo, diz com todas as letras, só faltou o desenho para o Peleguinho entender melhor; diz também que o projeto do Lulla foi “construído em grande medida contra a falta de senso, de realidade, contra a falta de projeto do próprio PT”, palavras dele, e quando o Emiliano resolve morder a isca dele, aceitar a provocação, o Risério parte logo na “vuadôra”; trata o Emiliano como o “ainda” ‘Der Kommissar’ do PT exercendo o santo ofício de desagravar as verdades ditas por esse e tomadas como ofensas por este. E vai mais além. Será que o Risério toma o Emiliano por um Peleguinho? Além de ‘bate pau’ é do tipo ‘paleopterígio’? O Risério deve ter aperfeiçoado essa técnica de classificação política ideológica ao cursar a disciplina paleoantropologia.
A frase do início é de minha autoria e foi colocada para me forçar a lembrar do personagem do Chico Anísio, Baiano o qual ele apresentava no quadro Baiano e os Novos Caetanos. Baiano era contemporâneo de Caetano, Gal, Gil, Betânia, Paulinho Boca, Moraes Moreira e alguns outros que como Baiano não se tornaram expoentes, atores principais no senário do Brasil da era Tropicália. Baiano tinha sempre uns contatos em Montreux, e transitava bem no circuito Londres x Bexiga x Lapa.
Sarcasmo e arrogância não são para todos não. O Xeleléu, muito humildemente diz: “enfim acho que realmente não sei nada do PT. Apenas por acaso participei de 2002, quando meu amigo Palocci discutiu, com os redatores da campanha, os termos da hoje célebre, ‘Carta aos Brasileiros’”.
Veja que Xeleléu não participou EM 2002, e sim DE 2002. Para Xeleléu, 2002 foi algo para se participar DE, algo como um 32, um 64, ou um 68 em Paris. E a amizade dele com Palocci? É mesmo que tá vendo Baiano e Tom Zé na casa de João Gilberto, sem querer comparar a casa do João Gilberto com a da República de Ribeirão. E a ‘célebre’ Carta aos Brasileiros é aquele documento no qual o PT desdiz tudo que acreditava desde 82. Pagar a dívida externa, privatizar estradas, geração de energia, portos e aeroportos, manter os bancos privados e reduzir impostos das montadoras de automóveis.
O único erro do Emiliano foi iniciar a réplica dele cobrando coerência de Xeleléu, salvo o fato de ter mordido essa isca. Por Deus do céu, ao ler a tréplica de Xeleléu, me bateu uma saudade danada do Diogo Mainardi, é abacaxi no traseiro e melancia no pescoço.
Veja se não embarca na onda discriminatória de Xeleléu você também. Não é o fato de namorar a Narcisa que desqualifica o Fiuza como jornalista ou como um reles mortal que tem algumas ideias e a oportunidade de divulga-las.

Márcio disse...

Não vamos (e não precisamos) chegar a nenhuma opinião comum sobre Risério. Você acha que ele é um xeleléu, seja lá o que for que isso signifique, e quer resumir sua carreria a um vinculo com a banda podre do PT, partido ao qual ele nunca pertenceu (nem ao PT, nem a nenhum outro). Eu acho que ele é uma das mentes mais lúcidas da Bahia e do Brasil de hoje. Sim, Risério sempre foi incisivo nas críticas, e eu acho isso ótimo, pois no Brasil de hoje todo mundo é muito politicamente correto e não critica ninguém. Essa polêmica com Emiliano José foi a coisa mais interessante que A Tarde publicou em 2012, com certeza! Aqui em casa há nove livros que Risério escreveu (um deles é uma coletânea de entrevistas concedidas por ele a vários órgãos de imprensa). Ainda tenho de ler dois, o que farei com muito prazer. Se fosse para falar pouco, eu diria que Risério é a cabeça pensante por trás da criação do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Se você ainda não o conhece, trate de ir e levar a meninada lá. É visita fundamental para um brasileiro se conhecer mais e melhor. Se você me indicar outro pensador/pesquisador/escritor baiano dos dias de hoje que tenha contribuído de forma decisiva para um projeto tão importante quanto o Museu da Língua Portuguesa, eu vou procurar conhecê-lo o quanto antes. Mas, no momento, não conheço.